quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Entrevista com Fernando Rees


Piloto brasileiro, com passagens no Kart e Fórmula, hoje participa do Mundial de Endurance (FIA WEC).



Velocidade Curitiba: Você iniciou ao "mundo das competições"  em 1994 no kartismo. Qual seu melhor momento?

Fernando Rees: Difícil responder. São muitas lembranças boas da época das corridas de kart. Mas acho que de modo geral a melhor lembrança é mesmo saber que nós (eu e minha família) começamos isso juntos sem saber nada, na base da curiosidade, e conseguimos traçar um caminho de sucesso para a minha carreira aprendendo passo a passo e sem depender em nenhum momento de alguém mais. A cada corrida era um aprendizado, e acho que as lições que aprendíamos foram determinantes para eu chegar onde cheguei.


Velocidade Curitiba: Em 1999 você migrou para o kartismo europeu. Existe alguma diferença do brasileiro para o europeu?

Fernando Rees: Hoje em dia eu não sei, porque não acompanho, mas na época eram dois mundos diferentes. O nível de competitividade era completamente diferente, assim como a tecnologia e os níveis de investimento que ocorriam na Europa. Como piloto, você sabia que estava correndo contra os melhores do mundo, e alguns dos quais todos já sabiam que chegariam na Fórmula 1 e em quais equipes entrariam, então tinha um peso muito grande em tentar acompanhar caras assim. O meu aprendizado no Brasil me preparou muito bem para a Europa, mas o amadurecimento necessário para construir uma carreira veio do estresse das competições na Europa.


Velocidade Curitiba: No ano de 2001, estreou na Fórmula Renault Italiana, e no ano seguinte, na Européia. Existe alguma diferença entre as duas, em termos de regulamento?

Fernando Rees: Não, era basicamente a mesma coisa, inclusive com os mesmos carros. A Italiana era o campeonato nacional mais competitivo do mundo de Fórmula Renault, então na Europeia os principais concorrentes eram os mesmos que eu já competia na Italiana. Era bem parecido mesmo. Em algumas ocasiões, como em Spa-Francorchamps e em Imola, as duas corriam no mesmo fim de semana – uma corrida de cada no sábado, uma corrida de cada no domingo.

Velocidade Curitiba: Em 2007, fez sua estréia no Le Mans Series, pela categoria GT1. Foi muito difícil se adaptar na categoria?

Fernando Rees: Na verdade, não. Eu estava parado há 18 meses depois de um acidente de F3000 em Monza que quase deu fim à minha carreira. Então o aprendizado sobre o que era um carro GT e sobre o que era uma corrida endurance aconteceram ao mesmo tempo em que eu dava minhas primeiras voltas desde o acidente e avaliava se continuaria a correr ou não. Então essa minha avaliação sobre continuar a correr ou não era muito mais significante para mim do que aprender sobre o carro GT ou a corrida endurance. Dessa forma ficou muito fácil, porque aprendi enquanto focava em outra coisa muito mais séria.


Velocidade Curitiba: Ainda no Le Mans Series, no ano de 2008/09 competiu pela categoria LMP2, uma categoria bem diferente das que já tinha andado. Como é a categoria? Qual o combustivel usado? Que tipo de carteira precisa ter para pilotar nessa categoria?

Fernando Rees: É bem diferente dos carros GT, mas não é tão diferente dos carros modernos de monopostos, então a minha experiência com esses carros ajudou muito. Desde as primeiras voltas no LMP2 eu era muito competitivo. O combustível era o mesmo para todos na Le Mans Series (exceto os carros movidos a Diesel), e a carteira de piloto também. Quanto a isso, não mudava nada. Eu me senti totalmente à vontade naquela categoria, e era muito mais fácil para mim encontrar meus limites nos protótipos do que nos carros GT, em função da minha experiência passada como monopostos. Mas a categoria tem seus problemas (que já tinha naquela época e ainda tem hoje), então preferi mesmo focar nos GTs. O LMP2 é uma categoria onde o regulamento tem muito peso no resultado das corridas. Cada um aparece um carro que anda muito mais que os outros, e é difícil demais saber qual carro será, então para gente como eu, que não gasta do próprio bolso e depende de patrocinadores e da satisfação dos patrocinadores, é arriscado demais.


Velocidade Curitiba: Ainda falando sobre Endurance. Como é participar do Mundial de Endurance, dividir disputas com grande nomes do automobilismo mundial?

Fernando Rees: É muito gratificante. É o campeonato que representa o topo da categoria endurance no mundo, então é muito especial e um marco importante na carreira. A maioria das equipes do FIA WEC já corriam juntas na Le Mans Series Europeia, então na realidade para nós mudou pouca coisa quando o campeonato surgiu – os competidores eram basicamente os mesmos, com alguns novos que migraram de outros campeonatos, e alguns a menos que preferiram ficar na Le Mans Series. Quanto às disputas com os “grandes nomes”, faz parte do cenário europeu onde eu sempre estive, mesmo. Então estou acostumado. Desde sempre foi assim. Desde a época do kart eu estava na situação onde os “grandes nomes” eram os concorrentes – Rosberg, Hamilton, Maldonado, Sutil, Kubica, etc.


Velocidade Curitiba: O que você acha do Endurance Brasileiro? Tem acompanhado?

Fernando Rees: Realmente não tenho acompanhado, então não posso dizer. Desculpa. Aliás, sobre o automobilismo no Brasil em geral em nunca soube muito porque eu sempre estive na Europa, então acompanha mesmo o que estava ao meu redor. Se me perguntasse quem corre na Stock Car hoje eu não saberia dizer.


Velocidade Curitiba: Conte-nos um pouco de sua expetiência nas 6 horas de São Paulo 2013.

Fernando Rees: Ao contrário do ano passado, esse ano foi um desastre para mim e para a minha equipe dentro da pista. O regulamento dos GTs, que forçou regras para “equilibrar os carros” com base nos resultados do ano passado, nos penaliza demais. Não tem como acompanhar os Porsche ou Aston Martin – sem chance. Em Le Mans éramos 12 km/h mais lentos nas retas. Em Interlagos éramos 7 km/h mais lentos. Não há nada que um piloto possa fazer em uma situação como essa. Então realmente foi muito difícil, e somando a falta de performance com uns problemas mecânicos que tivemos na corrida eu diria que terminar em 6º na corrida foi como uma vitória. Apesar do carro mais penalizado de todos, ainda estamos vivos na briga pelo campeonato, na busca pelo nosso bicampeonato mundial. Portanto, dentro da pista foi muito difícil. Mas fora da pista foi um verdadeiro show, e um prazer. O evento foi fantástico, sem dúvida o melhor do ano do FIA WEC até o momento. Incomparável a Silverstone ou a Spa-Francorchamps, com certeza. O carinho do público e o apoio da torcida foi muito especial. Fiquei chateado de não poder responder à altura da força que me deram, mas realmente dessa vez não tinha como.


Velocidade Curitiba: Para finalizar, você continua na categoria no próximo ano?

Fernando Rees: Com certeza. Só não sei ainda se na mesma equipe ou na mesma categoria. Estamos analisando as oportunidades, e em breve devemos saber mais. Mas com certeza estarei no FIA WEC – isso é garantido.

Entrevista feita por Cintia Azevedo

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